Percorrer túneis…

As vezes o processo de enraizamento em nós próprios pode ser confuso.

Podemos sentir-nos numa tempestade interna, em que apetece ir a correr para um lugar seguro, para um abraço materno, para “casa”.

Até conseguirmos interiorizar que a casa somos nós.

Que podemos encontrar calma interna na tempestade, porque sabemos que ela vai passar.

Pode ser duro, confuso. Pode virar o estômago ao contrário. Podemos sentir zumbido nos ouvidos. Podemos ter vontade de gritar. Podemos sentir revolta. Podemos sentirmo-nos completamente perdidos. Podemos sentir-nos num túnel sem ver a luz ao fundo.

Mas se escutarmos bem, internamente sabemos que todos os túneis acabam e que há luz.

E é ficando aí, sem fugir, dando-nos tempo para que a nossa sabedoria interna possa emergir é que o processo acontece.

Mais vezes nós conseguimos passar por esse processo, mais resilientes nos tornamos.

Mais fortes, mais capazes. Mais íntegros.

E vamos conseguir Ser cada vez mais.

Tirando camadas de condicionalismo. De dor. De feridas.

São processos solitários. São processos internos.

Não porque não temos ninguém a quem recorrer, mas porque precisamos de aprender a estar connosco.

A confiar em nós, na nossa sabedoria interna e no processo.

A sentir que não nos abandonamos.

Na força do ficar, do recolhimento. Em prole da nossa própria verdade. Da nossa dignidade.

Se não conseguimos estar perto de nós próprios, como podemos estar próximos do outro? E sobretudo : o que estamos a levar para o outro?

Mais cada um de nós está em verdade, responsável pelo próprio sentir, mais emanamos essa energia para o mundo, para quem está ao nosso lado.

Só assim mudamos o mundo.

Só assim permitimos que cada um faça o seu processo de cura e de alinhamento com a própria essência!

Só assim podemos Ser em toda a nossa grandeza.

Expectativas

Querendo ou não, com mais ou menos consciência, temos continuamente expectativas.

É normal. É humano. Todos queremos ser felizes e seguros.

A questão é saber gerir o que acontece emocionalmente em nos quando elas não correspondem à realidade. Temos expectativas sobre o tempo atmosférico, sobre o tempo que demoramos a percorrer um caminho, quando seguimos uma receita… e até aqui acredito que seja mais fácil a gestão.

Provavelmente complica quando falamos de relações… quando eu faço o que faço, digo o que digo, esforçando-me para obter um comportamento específico do outro que é suposto apaziguar-me, reconhecer-me, fazer-me sentir aquela sensação de “missão conseguida”. A verdade é que do outro lado está um outro ser humano que vai interpretar, receber, sentir, e agir conforme a sua história, o estado emocional do momento, o cansaço…

Sobretudo se for uma criança (no primeiro setênio) sem a mínima preocupação de não corresponder às nossas expectativas. E daí vem por exemplo a frustração de uma mãe/pai que decide dedicar o fim de semana o filho, cheia de entusiasmo e ideias numa visão completamente cor de rosa em que a primeira “birra” vai logo desencadear queixas e um sentido de culpa na criança “porque eu desisti de tudo para ter esse tempo contigo e agora tu portas-te assim???”

Essa mesma situação não é tão rara acontecer entre um relacionamento entre dois adultos…que a frase seja verbalizada ou mantida em silêncio. Em quanto adultos é mesmo importante que aprendamos a lidar e gerir as nossas expectativas e as consequentes emoções. Estar atentos no que esperamos ter de volta em qualquer ação (sendo que a não ação também é uma ação). Quando nos ficamos na expectativa, acabamos por querer controlar o processo, como se fosse certo que a ação A vai fazer acontecer o facto B.

Ao tomar essa atitude, tiramos a liberdade ao outro de ser quem é, de nos deixarmos surpreender pela vida e tornamo-nos extremos calculistas, jogadores de xadrez da vida, em que vamos estudar todas as possíveis jogadas do outro antes de movermo-nos.

Estamos em esforço, rígidos.

Tiramos a magia da vida, o fluxo, tiramos a curiosidade, a flexibilidade, a surpresa. Tiramos a liberdade ao outro de ser quem é.

Eu procuro agir colocando INTENÇÕES.

E deixar as expectativas, ou pelo menos estar atenta quando elas estão presentes e ficar curiosa em quanto isso afecta o meu sentir e eventualmente o meu comportamento. A intenção tem a ver comigo, com os meus valores, com a minha verdade, com a consciência das minhas necessidades.

Ao colocamos uma intenção, automaticamente há uma responsabilização no que vamos fazer ou dizer. Não esperamos nada do outro e estamos abertos para receber o que vier, tendo sempre presente a nossa intenção, estando fiel a ela em qualquer ação que se segue. Se sentimos que estamos a afastar-nos dela ou já não está tão presente, precisamos de parar, de respirar, de nos alinhar, encontrar, enraizar, com gentileza. Para agir e não reagir.

Quando tomamos essa atitude frente a crianças, estamos a dar-lhe o exemplo mais libertador que possam ter. De deixar o outro em paz e de assumir as próprias responsabilidades e aprender a lidar com o que é no AGORA. E não no que foi, no que podia ter sido, ou no que poderá vir a ser. O agora é a única coisa que temos. É real. Não há expectativa no aqui e agora. É o que é. É preciso aprender a lidar com a realidade. Com a emoção que se sente no agora, que está presente no corpo e aprender a geri-la. No caso de estar a lidar com uma criança precisamos de a acompanhar com gentileza, curiosidade e compaixão nesse processo. 🙌💜

Liberdade

Sentes-te livre de ser quem és?

Sentes-te em verdade contigo próprio?

Estás a respeitar e a seguir a tua intuição?

Ou estás preocupado em ser aceite?

Em fazer ou dizer o que “os outros” esperam?

Em ser o que “deve” ser?

Estás rodeado de pessoas que te permitem ser o que és ou que te condicionam? Mesmo que inconscientemente…

Muitas pessoas que chegam até mim dizem-me “Se tivesse sabido isso antes…” …mas chegamos quase sempre à conclusão que, na realidade, sempre souberam, sempre houve uma voz interna a indicar o caminho “certo”, só não tiveram coragem para o seguir, para não entrar no desconhecido, para não desistir do que é familiar, aparentemente confortável. (Que na realidade cria um grande desconforto interno, como se nós tivéssemos a trair…)

Muitos de nós não foram educados para se respeitarem.

Não fomos educados para nos responsabilizarmos.

Fomos educadas no “isso não fica bem”, “não podes dizer isso”, “ tens que…”, “se depois alguma coisa correr mal, não venhas ter comigo” , “vê lá o que fazes”, “o que que os outros vão pensar”, “não fica bem dizeres isso”…

Fomos educadas no desempoderamento, no medo.

No medo da perca da conexão, do vínculo e do suporte. De que se somos nós próprios há um preço muito caro a pagar. O da solidão. De não sentir apoio. De não sentir pertença a tribo, a família, a sociedade, a um todo.

E assim desistimos. Silenciamos essa voz interna.

Tentamos ignora-la.

Desistimos aos poucos de nós próprios.

Em prole de um relacionamento, de um emprego “seguro”, de amizades, da família, da religião, da sociedade, da aparência.

Aparentemente desistimos. Porque a alma não desiste.

Nunca.

Continua a borbulhar por dentro. Como um vulcão aparentemente adormecido.

Até a ouvirmos.

Até fazer-se ouvir.

Até ganharmos coragem.

Até enraizarmos em nós próprios. Na nossa verdade.

E aí a magia acontece. Mesmo numa eventual passagem por um período de solidão ficamos mais fortes, sentimos a energia vital a subir. Sentimo-nos fiéis a nós próprios. E a vida ocupa-se do resto: traz-nos as pessoas certas, as oportunidades certas para sentirmo-nos em fluxo, em verdade, com dignidade, enraizados, íntegros e empoderados, na nossa individualidade e pertencendo a um todo!

Possamos nos respeitar e valorizar a unicidade, as diferenças das crianças.

Porque possam desde sempre ser quem são. Sem expectativas. Sem julgamento. Apenas com maravilhosa curiosidade sobre a alma que as habita 🙌